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O dia em que pensei em desistir da psicologia

Hoje, 27 de agosto, é o dia da psicóloga. É uma data muito importante para nós por ser o dia em que a psicologia foi reconhecida como profissão aqui no Brasil, lá em 1962. Este é um dia para celebrarmos essa grande conquista, renovarmos os nossos compromissos com a sociedade a partir do nosso servir e de relembrar nossa caminhada na psicologia e o que nos fez escolher essa profissão.


Hoje, contudo, quero comemorar esse dia de um jeito diferente. Hoje quero celebrar a minha tragetória lembrando do dia em que quase desisti da psicologia e o que me fez continuar.


Era 2015, ultimo ano de faculdade, e eu estava estagiando em uma unidade ambulatorial pública especializada em oncologia. Era um trabalho que eu estava amando e tendo experiencias e aprendizados incríveis, apesar dos desafios inerentes da prática psicológica envolvendo adoecimento crônico e risco de vida, porém, o que eu não esperava é que o maior desafio que viria pra mim nada tinha a ver com o câncer.


Um dia, chega para ser atendida por mim uma senhora que aqui eu vou chamar de Dona Telma. Ela já tinha passado pelo tratamento oncológico completo e tinha ido à unidade apenas para fazer seus exames de rotina e acompanhamento quando a encaminharam para a psicologia, que era uma prática comum.


Apesar de estar bem fisicamente, identifiquei no atendimento que Dona Telma tinha algumas demandas de ordem familiar, então comecei a acompanha-lha periodicamente. Ela morava em outra cidade e toda semana viajava à Salvador para ser atendida por mim, e demonstrava muito desejo em continuar esse processo comigo.


Os atendimentos corriam bem, dona Telma me falava dos seus desafios familiares e pessoais e eu fazia o acolhimento e as intervenções. Até o dia em que ela me trouxe uma informação que mexeu com todas as minhas estruturas: ela estava em situação de insegurança alimentar.


Aquilo acabou comigo, de repente eu não sabia mais o que fazer e, na minha cabeça, não tinha nada que eu pudesse fazer para resolver o problema dela. Eu pensava: “Como que ficar aqui só ‘de conversa’ com ela vai ajuda-la? Ela está passando fome!”. Eu ainda não entendia que aquela “conversa” que tínhamos toda semana estava sendo a maior ajuda para dona Telma naquele momento, que ter um espaço para ser ouvida e acolhida estava tendo uma importância enorme para ela.


Depois desse dia minhas certezas sobre a psicologia foram abaladas e eu já não conseguia mais me ver na profissão, pois, para mim, existiam problemas muito maiores e mais importantes acontecendo na vida das pessoas e que “apenas” sentar e conversar sobre não iria resolver nada. Eu fiquei absolutamente insegura.


A partir dali eu recalculei minha rota. Depois que me formei fui trabalhar na área organizacional e cheguei a cogitar fazer outro curso. Precisei de um longo tempo para processar e ressignificar o que tinha acontecido comigo e entender qual era o meu papel profissional na situação de dona Telma.


E foi o tempo que me fez voltar definitivamente para a psicologia. O tempo que eu me permiti ter para olhar para dentro de mim e cuidar das dores que a experiência com dona Telma despertou e cuidar delas. Foi o tempo que eu necessitei para amadurecer e compreender meu lugar no mundo e na psicologia.


Hoje o dia da psicóloga me enche de alegria, pois me faz lembrar de um processo de transformação profunda que atravessei até encontrar e reconhecer o meu potencial. Os desafios ainda fazem parte da prática diária, porém hoje consigo celebrar as minhas vitórias e ter mais segurança para entregar o melhor serviço que sei que posso oferecer.


Espero que minha história possa te inspirar de alguma forma e te fazer comemorar comigo! Você também faz parte dela!

 
 
 

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